domingo, 7 de maio de 2017

FAÇA-ME UM FAVOR

Era uma radiosa manhã de primavera. O sol brilhante iluminava as ruas estreitas e pitorescas de Florença, projetando uma profusão de luz no gabinete de trabalho de um dos mais famosos pintores de Toscana, André Verrocchio. Um rapaz muito pálido, curvado sobre seu cavalete, parecia completamente absorvido no trabalho. Sua nobre flauta era envolta por densa nuvem de tristeza.

De repente o jovem pintor foi interrompido. Uma mulher idosa, entrando no aposento, lhe disse com voz cheia de emoção:

- Meu filho, o mestre deseja vê-lo. Vá logo ter com ele.

Imediatamente, Leonardo deixou a palheta e os pincéis, e dirigiu-se
ao quarto do seu venerando mestre, que se encontrava entre a vida e a morte.

- Leonardo, disse-lhe o doente, com voz muito sumida, estou prestes a morrer; quer fazer-me um favor? É o último pedido que lhe faço.
 
O jovem ajoelhou-se junto do leito de seu mestre, tomou entre as suas mãos a mão trêmula que se lhe estendia e respondeu com forte emoção:
 
- Meu mestre, para satisfazer um desejo seu eu irei aonde você quiser e tudo farei; não há sacrifício algum que me pareça grande demais, se eu o fizer pelo amor que tenho a você.
 
O doente fixou os olhos baços, durante algum tempo, nos de seu discípulo e depois disse:
 
-    Leonardo, o trabalho que eu comecei para o altar do claustro de São João, você poderá acabá-lo por mim?
 
Leonardo baixou os olhos e, depois de alguns instantes, disse:
 
- Mestre, não sou capaz, absolutamente não sou capaz! Eu estragarei a sua obra se nela tocar.

Verrochio sorriu e disse com voz calma e nítida:
 
- Não, meu filho, faça o melhor que puder. Trabalha por amor a mim. A pintura precisa de ser acabada e você podes fazê-lo.
 
A tarde descia com suas sombras melancólicas. De uma pobre casebre de Florença começou a subir para o céu a súplica de um coração ardente: "Meu Deus, dizia Leonardo - porque era ele que se encontrava de joelhos - ajuda-me por amor de meu mestre a fazer o melhor que eu puder! Não sou digno dessa obra, bem o sei, mas auxilia-me por amor dele."
 
Passou-se um mês - período de sérias aflições para o jovem artista
 
- Pois ele sentia que a hora da partida de seu mestre se aproximava rapidamente. Afinal concluiu a pintura e apresentou-a ao doente, dizendo:
 
- Eu fiz o que pude, meu mestre, e tudo por amor a você!

Com grande admiração o bom velho, derramando lágrimas, respondeu-lhe, agitado por grande emoção:
 
- Meu filho, meu filho, você triunfou, e muito bem. Não preciso voltar mais ao trabalho e Florença orgulhar-se-á um dia do nome de Leonardo da Vinci! - Respigando

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